Desperte a curiosidade para fortalecer Sua fé hoje

Amanda Williams defende perguntas como caminho para uma leitura bíblica mais viva e sincera

Os cristãos nunca foram estranhos ao mistério, mas em algum momento, muitos passaram a temê-lo. As perguntas deixaram de ser convites para se tornarem riscos. Construímos a fé como uma fortaleza — com muros grossos de certeza para proteger a crença da ousadia do questionamento. Porém, quanto mais tempo esses muros permanecem, menos luz entra.

É curioso, pois a própria Bíblia está repleta de questionadores. Abraão insiste para que Deus reconsidere Seu julgamento. Jó exige entender por que os justos sofrem. Maria se pergunta em voz alta como o impossível poderia acontecer por meio dela. Até Jesus, pregado na cruz, clama: “Por que me abandonaste?” A Escritura, em seu âmago, é um diálogo entre o mistério divino e a curiosidade humana.

O renascimento da curiosidade na leitura bíblica

Amanda Williams, cofundadora do She Reads Truth, acompanha há mais de uma década esse diálogo voltando à vida. Ela observa uma tendência pouco comum: as pessoas redescobrindo a Bíblia não como um manual de regras, mas como uma conversa.

“Temos visto surgir uma cultura de curiosidade”, afirma. “As pessoas querem ver o que a Escritura realmente diz, não apenas o que outros falam sobre ela.” Williams não trata a leitura bíblica como uma tarefa a ser cumprida ou um exercício espiritual a ser dominado. Ela a vê como um convite — algo simples e sagrado que sempre esteve ali, mesmo quando a religião fazia parecer um dever pesado.

“A audácia disso ainda me impressiona”, diz. “Que Deus realmente quer ser conhecido e nos dá a Escritura como meio para isso. Nos meus melhores dias, isso supera todos os ‘deveres’.”

Essa pequena mudança — de obrigação para curiosidade — transforma tudo. Libera as pessoas de apenas desempenharem a fé e as convida a participarem dela.

“Curiosidade é um dom”, afirma Williams. “Mas às vezes ela parece ameaçadora na Igreja. Agimos como se Deus tivesse medo das perguntas. Mas não acho que seja assim. Do mesmo modo que um pai não se ofenderia se o filho perguntasse por que a família faz algo — ele ficaria feliz em responder. Ele quer conversar sobre isso.”

O desafio de questionar dentro da Igreja

Williams acredita que o desconforto da igreja moderna com perguntas tem menos a ver com doutrina e mais com controle. A certeza é segura, mensurável e fácil de ensinar.

Por outro lado, a curiosidade não pode ser controlada. Pode levar a lugares novos — ou a lugares que não cabem em um sermão. Mas é justamente aí que ocorre o crescimento.

“Também acredito que a dúvida é um dom”, diz. “Porque ela é a porta para o aprofundamento.”

Suas palavras ecoam algo antigo — o que místicos e profetas pareciam saber por instinto: um Deus que não pode ser questionado não é um Deus verdadeiro. A fé que permanece não é aquela que nunca duvida; é a que continua duvidando.

Williams já viu esse espanto de perto. Relata mulheres — muitas frequentadoras da igreja a vida toda — que confessaram silenciosamente nunca terem lido a Bíblia por conta própria. Elas achavam o texto complexo, intimidante ou estranho demais.

“E a gente simplesmente diz: ‘Adivinhe? Não é assim. Vamos fazer isso juntas’”, conta. “Essa é a minha parte favorita.”

Quando fala sobre engajamento bíblico (expressão que ela admite soar técnica), não se refere a planos de leitura ou sequências perfeitas de devoção.

“Se você abre a Bíblia, já está se envolvendo com ela”, explica. “Isso conta.”

Para uns, são poucos versículos antes do trabalho. Para outros, páginas à noite. De qualquer forma, é o suficiente para começar.

Williams compara essa experiência a ouvir uma canção que você só conhecia de ouvir falar.

“Alguém pode descrever a música, e você até pode escutá-la. Mas quando você a experimenta por si mesmo, ela se torna sua.”

Esse momento — quando a Escritura deixa de ser algo que outro explica e passa a ser algo que você encontrou — é o que ela busca.

Mas ela reconhece que a curiosidade tem custo. Ela desestabiliza uma fé confortável. Obriga os crentes a conviver com a tensão, a ler as partes da Bíblia que não fazem sentido, parecem duras ou injustas.

“Se você tenta manter seu encontro com a Escritura limpo e selecionado, isso não é real”, afirma. “A Bíblia não ignora as partes difíceis. Deus não desvia o olhar das sombras da humanidade. Por que deveríamos nós?”

Em outras palavras, curiosidade não é acumular curiosidades ou satisfazer um desejo intelectual. É sinceridade. É chegar ao texto como somos — confusos, céticos, esperançosos — e crer que Deus nos encontrará ali.

“Não preciso deixar minha humanidade do lado de fora”, diz Williams. “É para isso que Deus me criou.”

Ser curioso é amar Deus o suficiente para acreditar que Ele suporta nossa incerteza. É continuar lendo, mesmo quando as palavras não se encaixam perfeitamente. É deixar que as perguntas façam seu trabalho, moldando-nos em pessoas que buscam, em vez de se acomodarem.

Ao contrário do que se pensa, o oposto da fé não é a dúvida. É a indiferença. E a cura para a indiferença pode ser justamente a curiosidade — uma pequena faísca de espanto que mantém a luz acesa. (Com informações de Emily Brown – Relevantmagazine)

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